A situação antes da batalha
Em 711 o califado omíada lançou uma invasão da Península Ibérica, quebrou o reino visigótico numa única batalha e dominou quase toda a península em sete anos. Por volta de 718 a conquista parecia completa. Apenas as montanhas remotas das Astúrias e do País Basco ficaram fora da administração muçulmana direta, e os novos governadores prestavam-lhes pouca atenção - terreno pobre, valor estratégico baixo.
Nessas montanhas, um nobre visigótico chamado Pelágio começou a organizar o que restava da resistência cristã. Combatentes locais juntaram-se a ele. As autoridades muçulmanas, quando reparavam, tratavam-no como um incómodo.
A batalha em si
Por volta de 722, quando as notícias de uma resistência cristã crescente chegaram a Córdova, o governador local Munuza enviou uma expedição punitiva sob um comandante chamado Alqama. Pelágio, em grande inferioridade numérica, recolheu-se para uma posição defensiva junto a uma gruta em Covadonga, no alto dos Picos da Europa.
A coluna muçulmana seguiu-o pela montanha, e o terreno fez logo o trabalho de um exército. Os passos estreitos anularam a vantagem numérica. Segundo as crónicas cristãs, Pelágio e os seus mantiveram a entrada da gruta enquanto deslizamentos de terra e quedas de pedras - provavelmente provocados pelos defensores - despedaçavam a força atacante. As crónicas acrescentam pormenores milagrosos: setas disparadas contra os cristãos a ricochetear e atingir os muçulmanos, a Virgem Maria a proteger a posição de Pelágio.
Despida da lenda, o que aconteceu foi provavelmente uma emboscada de guerrilha bem-sucedida em terreno montanhoso difícil. O comandante Alqama foi morto; a expedição muçulmana retirou-se. O confronto foi pequeno. As consequências, não.
Porque uma batalha menor se tornou o evento fundador
Desde 711, todo confronto cristão com o novo poder muçulmano tinha terminado em derrota. Covadonga foi a primeira vitória. Após onze anos de desastre ininterrupto, esse único facto importava de forma desproporcional ao número de mortos.
Após a batalha, Pelágio fundou o Reino das Astúrias - a primeira comunidade política cristã independente da Ibéria pós-conquista. Das Astúrias surgiriam Leão, depois Castela. A cadeia de reinos que acabaria por reconquistar a Espanha começa nesta única gruta.
Durante dez anos o avanço muçulmano tinha parecido uma força da natureza. Covadonga provou que era uma força humana, e as forças humanas podem ser detidas. Essa convicção foi o verdadeiro capital fundador da Reconquista.
As rebeliões anteriores tinham acendido e morrido. Após Covadonga, a resistência cristã na Ibéria nunca mais se apagou - durante 781 anos, até as chaves de Granada mudarem de mãos.
As crónicas leram a vitória como intervenção divina. A Virgem Maria tornou-se patrona da Reconquista. Esse enquadramento religioso - a guerra como dever sagrado - é o que permitiu ao projeto sobreviver trinta gerações.
Lenda e história
Os primeiros relatos detalhados de Covadonga foram escritos mais de um século após o evento. Nessa altura a batalha já tinha adquirido os seus traços míticos. As fontes muçulmanas do período mal mencionam o encontro - para os historiadores cordoveses contemporâneos, não era digno de nota.
É a forma certa de o ver. Covadonga importa não pelo tamanho da batalha mas pelo tamanho do que iniciou. Uma escaramuça que os cronistas de Córdova não se deram ao trabalho de registar revelou-se o momento a partir do qual seria medida toda a restante história espanhola.
Uma escaramuça que os cronistas cordoveses ignoraram tornou-se no momento pelo qual a Espanha se mediu durante mil anos.
Depois de Covadonga
Pelágio continuou a consolidar o Reino das Astúrias. Os seus sucessores empurraram a fronteira para sul, devagar, geração após geração, para Leão, Castela, Aragão. Córdova cairia em 1236. Sevilha em 1248. Las Navas de Tolosa em 1212 quebrou o poder almóada. Granada rendeu-se a 2 de janeiro de 1492.
O arco da história tem mil anos. Começa nesta gruta, em 722.
O que resta hoje
Covadonga é um local de peregrinação ativo. A basílica oitocentista de Santa María la Real de Covadonga atrai centenas de milhares de visitantes por ano. O sítio guarda o túmulo de Pelágio. A gruta conserva a sua pequena capela. O santuário é o único campo de batalha na história europeia ainda tratado como destino religioso.
Os historiadores modernos podem discutir o tamanho do confronto e os nomes dos mortos. Não podem discutir o que a gruta produziu: uma tradição contínua de autogoverno cristão ibérico que não existia antes de 722, e que não foi quebrada desde então.
Cronologia
Tariq ibn Ziyad desembarca em Gibraltar; o reino visigótico desmorona-se em poucos meses.
Quase toda a península está sob administração muçulmana, exceto as montanhas do norte.
Os nobres cristãos juntam-se a Pelágio nas Astúrias.
Pelágio derrota a expedição punitiva muçulmana. Começa a Reconquista.
Pelágio estabelece o primeiro reino cristão estável e independente da Ibéria pós-conquista.
A batalha decisiva que destrói o poder almóada, 490 anos depois de Covadonga.
A Reconquista é completada. 781 anos depois de Covadonga.
Lê o argumento mais amplo
Covadonga é o momento em que a Ibéria cristã deixou de recuar. A página da tese explica porque a Reconquista é a única recuperação em larga escala de uma civilização que o islão tinha conquistado, e o que aconteceu a todas as outras.
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